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Calmaria
Cheiro de café pela casa Garoa macia no telhado Música de Tom com voz de Gal Pássaros em sinfonia no quintal Você, dentro de mim Pinceladas De uma manhã de dezembro Vêm colorir o meu céu Nuances felizes E minha alma canta (Vejo o Rio de Janeiro....) Ana Flora Semeado por Ana Flora às 10h38 [] [envie esta flor] Via Láctea
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
E conversamos toda a noite enquanto
Direis agora: "Tresloucado-amigo!
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Olavo Bilac
Semeado por Ana Flora às 15h37 [] [envie esta flor] Imorais
Os imorais falam de nós Do nosso gosto Nosso encontro Da nossa voz Os imorais Se chocam Por nós Nosso brilho Nosso estilo Nossos lençóis Os imorais Sorriram pra nós Fingiram trégua Fizeram média Venderam paz Mas um dia Eu sei A casa cai E então A moral da história Vai estar sempre na glória De fazermos O que nos satisfaz Zélia Duncan e C. Oyens Semeado por Ana Flora às 11h39 [] [envie esta flor] Essencialmente tocada
Alegria. É isso. Uma surpresa alegre envolveu-me assim que cheguei e vi meu blog repleto de pessoas. Ainda não sabia da indicação e fiquei emocionadíssima ao vê-lo lá, estampado na lista do UOL. Cada vez que publico um poema ou uma foto, penso em chegar à essência de cada um que visite minha página. Muito pouco provável que eu consiga? Talvez. Entretanto, faço tudo com muito carinho e delicadeza. Em cada letra, cada detalhe, há um pouco de mim e divido-o com vocês. Portanto, saber que compartilham da minha alegria é simplesmente maravilhoso. Aos poucos, responderei a todos os comentários. Como disse, acabei de chegar e ainda estou saboreando esse momento. Recebam a flor e o meu carinho. Um beijo delicado. Ana Flora Semeado por Ana Flora às 23h04 [] [envie esta flor] Sudoeste
Tenho por princípios Nunca fechar portas Mas como mantê-las abertas O tempo todo Se em certos dias o vento Quer derrubar tudo?... Adriana Calcanhotto/Jorge Salomão Semeado por Ana Flora às 12h41 [] [envie esta flor] Apontamento
A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Asneira? Impossível? Sei lá! Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Não se zanguem com ela. Olham os cacos absurdamente conscientes, Olham e sorriem. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Fernando Pessoa - Poemas de Álvaro de Campos, 1929 Semeado por Ana Flora às 23h50 [] [envie esta flor] Pelo avesso Tenho saudade de tudo. O que fui - passado, o que realizei - desfez-se, o que tive - cinzas. Queria voltar no tempo e me reencontrar. Há dias em que é muito difícil estar comigo mesma e enfrentar todas as frustrações. Procuro e não encontro saídas. É como se tudo se fechasse à minha volta e só eu me restasse a mim. Vazio. Alguns pedaços meus parecem se entrelaçar nos recortes que faço na minha mente. Eles se misturam, de um lado a outro, mas o quebra-cabeça não pode ser (re)montado. Por que é tudo tão difícil hoje? Refaço meu trajeto e fico procurando o que possa justificar tanta dificuldade. O que pode ter ocasionado tamanha re-vira-volta? Quero calmaria. Às vezes, sinto-me completamente testada. Parece que há propósitos específicos dos quais ainda não me dei conta. De qualquer forma, sigo lutando. Ainda que, por alguns momentos, eu desmorone...
Semeado por Ana Flora às 21h54 [] [envie esta flor] Os poemas
Rouxinol (Pereiro - Mação - Beira Baixa - Portugal) Os poemas são pássaros que chegam Mário Quintana Semeado por Ana Flora às 10h03 [] [envie esta flor]
Uva Água na boca Boca no seio Seio na língua Fruta no meio Olho no olho Seio no seio Boca na boca Fruta no meio Doce sabor Amor sem receio Desejo e prazer Fruta no meio Ana Flora Semeado por Ana Flora às 12h10 [] [envie esta flor] Fernando Pessoa Odes de
Para ser grande, sê inteiro: nada Ricardo Reis, 14-2-1933 © Reservam-se os direitos da imagem ao autor lleal. Semeado por Ana Flora às 11h04 [] [envie esta flor] O amor além de nós
O amor além de nós passou Quebraram-se os laços de nossa afeição Esgotou-se a atenção com que nos nutrimos E, como perfeitos estranhos, nos saudamos E, ainda que eu recorde os dias passados, Não sei por que razão Meu coração não se parte Em centenas de pedaços Poema de AMARU, poeta de corte indiana que viveu por volta do século 7 de nossa era, escrito originalmente em sânscrito. Semeado por Ana Flora às 08h58 [] [envie esta flor] Cheiro de saudade
Na ausência te percorro A sala vazia Almofadas azuis [Na poltrona] Teu cheiro Rosas brancas na janela “O velho e a flor” a tocar E você, por onde anda? Ana Flora Semeado por Ana Flora às 13h24 [] [envie esta flor] Mansidão
aqui um solzinho manso... Ana Flora Semeado por Ana Flora às 23h22 [] [envie esta flor] Doce Encanto
Desejo a você que sempre esteja aberta, entregue à vida. Que todos os dias a sinta, nos ínfimos detalhes. Que descubra tudo isso em seu cotidiano. Não é preciso sair de onde se está para ter tudo isso: tem canto de passarinhos, tem chuva no telhado, tem música de Tom, tem cheiro de jardim.. Com sensibilidade, todos esses desejos se concretizam. A vida bate à porta e cada detalhe dela nos preenche, move.. A propósito, já se perguntou o que fico fazendo no seu jardim? Fico horas lá.. Já surpreendi-me divagando sobre feixes de luz que tocavam uma pequena poça d'água.. Adoro sua cia, adoro ficar na sua casa, adoro lavar louça com você brincando com a espuma do sabão, adoro cozinhar com você, ver os alimentos se transformarem, adoro sentir o aroma do café de sua casa, adoro roubar os doces das compotas, adoro ouvir o barulho dos vizinhos, dos passos de chinelo que se arrastam na calçada em frente ao seu portão, adoro ir comprar pão na padaria para você e, no caminho, observar pessoas, coisas.. Amo você, amo viver! De Li para Ana Flora Semeado por Ana Flora às 00h34 [] [envie esta flor] Desalento
Eu faço versos como quem chora Meu verso é sangue. Volúpia ardente... E nestes versos de angústia rouca - Eu faço versos como quem morre.
Semeado por Ana Flora às 16h12 [] [envie esta flor]
Desejo a vocês... Fruto do mato Desejos Semeado por Ana Flora às 13h48 [] [envie esta flor] Namorar ou não namorar
Quem não namora não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um cônjuge, mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não namora quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho. Não namora quem transa sem envolvimento, quem se achega sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. Não namora quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar. Não namora quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, da poesia de Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não namora quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não namora quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas esmiuçando dentro dos olhos o mistério do outro, ambos abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não namora quem não redescobre a sua criança e a do amado e com ela vai a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não namora quem não tem trilha sonora, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não namora quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não namora quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não namora quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não namora quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não namora quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser carinhoso e de se entregar. Se você não namora é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando toneladas de grilos e de medos. Ponha sua roupa mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite sua alma com margaridas e ternuras e escove-a com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela. Ponha intenção de queimar-se em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não namora é porque não enlou-cresceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido. Artur da Távola Semeado por Ana Flora às 16h38 [] [envie esta flor]
Senhorinha Guinga/Paulo César Pinheiro Senhorinha Sinhazinha Será que ela quer casar Princesinha Sinhá mocinha Será que eu vou subir no altar Ó prenda minha Semeado por Ana Flora às 16h37 [] [envie esta flor] Em Flor (Too Young)
Amor nenhum tem tal poder Semeado por Ana Flora às 14h39 [] [envie esta flor] ![]() Obrigada...
Pela volta
não vinda.
Pelo beijo
não dado.
Pelo abraço
não apertado.
Pela comida
não pronta.
Pela fruta
não madura.
Pelo carinho
não feito.
Pelo amor
não saciado.
Obrigada...
Pela espera
não útil.
Denize Sarruf Semeado por Ana Flora às 17h31 [] [envie esta flor]
De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo Vinicius de Moraes Semeado por Ana Flora às 15h01 [] [envie esta flor]
Todas as cartas de amor são Também escrevi em meu tempo cartas de amor, As cartas de amor, se há amor, Mas, afinal, Quem me dera no tempo em que escrevia A verdade é que hoje (Todas as palavras esdrúxulas,
Semeado por Ana Flora às 14h16 [] [envie esta flor] |
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Palavra de Mulher | ||
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Chico Buarque
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Vou voltar | |
Procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond
A IDADE DE SER FELIZ
Mário Quintana

Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

O beijo e cada signo |
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No Dia dos Namorados, nada melhor do que comemorar com um beijo apaixonado. Os beijos são uma arma poderosa na hora de seduzir, e cada signo tem um jeitinho de fazer esse momento especial. |
História de coisa
O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo - faço questão de que seja "objecto" e não "objeto". O "c" é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas. Às vezes, quando disco um número, toca, toca, toca sem parar e ninguém atende: comunico-me pálida com o silêncio de uma casa oca. Até que não agüento a tensão e, nervosa, de súbito desligo, nós dois com taquicardia.
O telefone é insolúvel. O telefone é sempre emergente. As palavras não são coisas, são espírito. O telefone não fala objectos, fala espírito. Mas eu duvido da minha própria dúvida - e não sei mais o que é coisa e o que é eu diante da coisa. Ou se trata da tirania das palavras? Tomo cuidado para não pensar demais. Faz mal às palavras.
Mas o telefone obedece a uma lei inalterável e a um princípio eterno e dinâmico. Eu me ajusto à minha incerteza certa da certeza do telefone. Apesar de tantas conversas e palavras - o telefone é solitário. E mantém segredo. Indiscrição? Solitude. O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Atendo, digo "Alô" - e ninguém fala. Fico ouvindo a respiração de quem me ama e não tem coragem de falar comigo.
E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta. Até que não agüento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande. E quando eu me comunico com o sinal de comunicação? É um enigma: eu me comunico com um "não". Quando disco e dá sinal de ocupado, estou me comunicando com o sinal de comunicação. Com o próprio enigma, pois estou me comunicando com "não, não, não, não, não, não". E espero angustiada que o "não, não, não" se transforme em "sim, sim, sim". O sinal abençoado da chamada positiva de repente é: alô? de onde fala? Eu queria saber se existe o número 777-7777. Se existe comunico-me com o além.
O telefone é como a girafa: nunca se deita. E, apesar de ser usual, é como a girafa: inusitado. Sinto o telefone me esperar quando ele não estabelece logo uma ligação. Ouço uma respiração contida, contia, contida. O telefone é um ser infeliz. Ele pode se desesperar e de repente transmitir uma notícia ruim que pega a gente desprevinida. Mas quando pode, dá notícia alegre. Eu então rio baixinho.
Não adianta me explicarem como funciona o telefone. Como é que eu disco um número em casa e outra casa responde? Raio laser? Não. Astronauta, sim. Como é que na Idade Média e na Renascença as pessoas se comunicavam? Na Suíça a gente pede à telefonista para nos acordar a tal e tal hora. E também tem um serviço ótimo: a gente pergunta uma pergunta que só uma boa enciclopédia responderia. A telefonista pede para aguardar um prazo e depois telefona informando.
No Brasil demora meses ou até anos para a gente conseguir obter um telefone. Em New York um brasileiro pediu à telefonista para adquirir um telefone com muita urgência. Ela disse que não podia dar com urgência. O brasileiro desanimado perguntou quando conseguiria. Para seu pasmo, ela disse: só aqui a três dias.
Não digo o número de meu telefone porque é de grande segredo.
Meu telefone é vermelho. Eu sou vermelha.
Tenho que interromper porque o telefone está tocando.
Clarice Lispector

Cantada
Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana
Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
Ferreira Gullar
DENTRO DA NOITE VELOZ (1962-75)


| Quando acariciei o teu dorso, campo de trigo dourado, minha mão ficou pequena como uma flor de açucena que delicada desmaia sob o peso do orvalho. Mas meu coração cresceu e cantou como um menino deslumbrado pelo brilho estrelado dos teus olhos. |

Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.
"Cecília levita, como um puro espírito...Por isso ela se move, "viaja", sonha com navios, com nuvens, com coisas errantes e etéreas, móveis e espectrais, transformando em pura poesia essa caminhada. Uma das excepcionalidades de Cecília Meireles: a composição de uma poesia densamente feminina, não apenas a poesia feita por alguém que é mulher, mas obra de mulher, de um sem número de perspectivas sobre as coisas que os homens não teriam, poesia na qual uma das grandes forças é a delicadeza, e delicadeza de poeta, que transfigura a vida em canto..."
Ana Cristina Cesar
Não tem volta
Zélia Duncan
Se você vai por muito tempo
Você nunca volta.
Você retorna,
Você contorna
Mas não tem volta
A estrada te sopra pro alto
Pra outro lado
Enquanto
Aquele tempo
Vai mudando.
Aí, de quando
Em quando você lembra
Aquele beijo,

Aquele medo
Mas você sabe
Que tudo ficou antigo
E você não volta
Nem com escolta
Nem amarrado
Porque o passado
Já te perdeu
E o perigo
Muda mesmo de endereço
Não existe pretexto.
O dia mudou
O carteiro não veio
O principio é o meio
E você retorna
Mas não tem volta.
Clarice Lispector

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.
Não altera em nada...
Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.
A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."