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02 de Junho de 2008
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Calmaria

Cheiro de café pela casa

Garoa macia no telhado

Música de Tom com voz de Gal

Pássaros em sinfonia no quintal

Você, dentro de mim

Pinceladas

De uma manhã de dezembro

Vêm colorir o meu céu

Nuances felizes

E minha alma canta

(Vejo o Rio de Janeiro....)

Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 10h38
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Via Láctea

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto,
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E ao vir do Sol, saudoso e em pranto
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado-amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Têm o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas."

Olavo Bilac



Semeado por Ana Flora às 15h37
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Imorais

Os imorais falam de nós

Do nosso gosto

Nosso encontro

Da nossa voz

Os imorais

Se chocam

Por nós

Nosso brilho

Nosso estilo

Nossos lençóis

Os imorais

Sorriram pra nós

Fingiram trégua

Fizeram média

Venderam paz

Mas um dia

Eu sei

A casa cai

E então

A moral da história

Vai estar sempre na glória

De fazermos

O que nos satisfaz

Zélia Duncan e C. Oyens



Semeado por Ana Flora às 11h39
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Essencialmente tocada

Alegria. É isso. Uma surpresa alegre envolveu-me assim que cheguei e vi meu blog repleto de pessoas. Ainda não sabia da indicação e fiquei emocionadíssima ao vê-lo lá, estampado na lista do UOL.

Cada vez que publico um poema ou uma foto, penso em chegar à essência de cada um que visite minha página. Muito pouco provável que eu consiga? Talvez. Entretanto, faço tudo com muito carinho e delicadeza. Em cada letra, cada detalhe, há um pouco de mim e divido-o com vocês. Portanto, saber que compartilham da minha alegria é simplesmente maravilhoso.

Aos poucos, responderei a todos os comentários. Como disse, acabei de chegar e ainda estou saboreando esse momento.

Recebam a flor e o meu carinho.

Um beijo delicado.

Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 23h04
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Sudoeste

Tenho por princípios

Nunca fechar portas

Mas como mantê-las abertas

O tempo todo

Se em certos dias o vento

Quer derrubar tudo?...

Adriana Calcanhotto/Jorge Salomão



Semeado por Ana Flora às 12h41
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Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Fernando Pessoa - Poemas de Álvaro de Campos, 1929


Semeado por Ana Flora às 23h50
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Pelo avesso

Tenho saudade de tudo.

O que fui - passado, o que realizei - desfez-se, o que tive - cinzas. Queria voltar no tempo e me reencontrar.

Há dias em que é muito difícil estar comigo mesma e enfrentar todas as frustrações. Procuro e não encontro saídas. É como se tudo se fechasse à minha volta e só eu me restasse a mim. Vazio.

Alguns pedaços meus parecem se entrelaçar nos recortes que faço na minha mente. Eles se misturam, de um lado a outro, mas o quebra-cabeça não pode ser (re)montado. Por que é tudo tão difícil hoje? Refaço meu trajeto e fico procurando o que possa justificar tanta dificuldade. O que pode ter ocasionado tamanha re-vira-volta?

Quero calmaria.

Às vezes, sinto-me completamente testada. Parece que há propósitos específicos dos quais ainda não me dei conta. De qualquer forma, sigo lutando.

Ainda que, por alguns momentos, eu desmorone...



Semeado por Ana Flora às 21h54
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Os poemas

 

Rouxinol (Pereiro - Mação - Beira Baixa - Portugal)

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana



Semeado por Ana Flora às 10h03
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Uva

Água na boca

Boca no seio

Seio na língua

Fruta no meio

Olho no olho

Seio no seio

Boca na boca

Fruta no meio

Doce sabor

Amor sem receio

Desejo e prazer

Fruta no meio

Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 12h10
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Fernando Pessoa

Odes de
Ricardo Reis

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933

© Reservam-se os direitos da imagem ao autor lleal.



Semeado por Ana Flora às 11h04
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O amor além de nós

 

O amor além de nós passou

Quebraram-se os laços de nossa afeição

Esgotou-se a atenção com que nos nutrimos

E, como perfeitos estranhos, nos saudamos

E, ainda que eu recorde os dias passados,

Não sei por que razão

Meu coração não se parte

Em centenas de pedaços

Poema de AMARU, poeta de corte indiana que viveu por volta

do século 7 de nossa era, escrito originalmente em sânscrito.



Semeado por Ana Flora às 08h58
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Cheiro de saudade

Na ausência te percorro

A sala vazia

Almofadas azuis

[Na poltrona]

Teu cheiro

Rosas brancas na janela

“O velho e a flor” a tocar

E você, por onde anda?

Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 13h24
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Mansidão

aqui um solzinho manso...
muito manso,
quase arrependido
 
e você escorre
em minhas gotas de suor
quase imperceptíveis.
 
aqui uma saudade aflita
do desconhecido
mais que perceptível.
 
mais que perfeito
subjuntivo presente
desabrochando
em meu gerúndio.
 
aqui uma voz
que chama teu nome
e te espera chegar
 
na quietude
de uma manhã clara.

Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 23h22
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Doce Encanto

Desejo a você que sempre esteja aberta, entregue à vida. Que todos os dias a sinta, nos ínfimos detalhes.

Que descubra tudo isso em seu cotidiano. Não é preciso sair de onde se está para ter tudo isso: tem canto de passarinhos, tem chuva no telhado, tem música de Tom, tem cheiro de jardim.. Com sensibilidade, todos esses desejos se concretizam. A vida bate à porta e cada detalhe dela nos preenche, move.. A propósito, já se perguntou o que fico fazendo no seu jardim? Fico horas lá..

Já surpreendi-me divagando sobre feixes de luz que tocavam uma pequena poça d'água..

Adoro sua cia, adoro ficar na sua casa, adoro lavar louça com você brincando com a espuma do sabão, adoro cozinhar com você, ver os alimentos se transformarem, adoro sentir o aroma do café de sua casa, adoro roubar os doces das compotas, adoro ouvir o barulho dos vizinhos, dos passos de chinelo que se arrastam na calçada em frente ao seu portão, adoro ir comprar pão na padaria para você e, no caminho, observar pessoas, coisas..

Amo você, amo viver!

De Li para Ana Flora



Semeado por Ana Flora às 00h34
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Desalento

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Manuel Carneiro de Sousa Bandeira nasceu em 1886, no Recife, de onde se transferiu, menino ainda, para o Rio de Janeiro. Atacado de moléstia pulmonar, viu-se obrigado a abandonar os estudos. Viveu algum tempo na Suíça, para onde seguiu em busca de melhoras para sua saúde. Em 1917, publicou seu primeiro livro, "As cinzas das horas", que foi seguido de "Carnaval", "Ritmo dissoluto", "Libertinagem", "Estrela da manhã", "Estrela da tarde", "Lira dos cinqüenta anos", "Belo, belo" e "Estrela da vida inteira". Valiosa sua obra de prosador, da qual se destacam: Apresentação da poesia brasileira (1944), Literário de Pasárgada (memórias/1954), Andorinha, andorinha (crônicas/1965). Professor de Literatura no Colégio Pedro II e na Faculdade Nacional de Filosofia/RJ. Faleceu em 1968, no Rio de Janeiro. Ocupa lugar destacado na moderna Literatura Brasileira como poeta e como estudioso da poesia. É patrono da Academia Brasileira de Letras.



Semeado por Ana Flora às 16h12
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Desejo  a vocês...

Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu

Desejos
Carlos Drummond de Andrade



Semeado por Ana Flora às 13h48
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Namorar ou não namorar

 

Quem não namora não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um cônjuge, mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não namora quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho. Não namora quem transa sem envolvimento, quem se achega sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. Não namora quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar. Não namora quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, da poesia de Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não namora quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não namora quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas esmiuçando dentro dos olhos o mistério do outro, ambos abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não namora quem não redescobre a sua criança e a do amado e com ela vai a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não namora quem não tem trilha sonora, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não namora quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não namora quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não namora quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não namora quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não namora quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser carinhoso e de se entregar. Se você não namora é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando toneladas de grilos e de medos. Ponha sua roupa mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite sua alma com margaridas e ternuras e escove-a com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela. Ponha intenção de queimar-se em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não namora é porque não enlou-cresceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

Artur da Távola



Semeado por Ana Flora às 16h38
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Senhorinha 

Guinga/Paulo César Pinheiro

Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha



Semeado por Ana Flora às 16h37
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Em Flor (Too Young)
Sid Lippman, Sylvia Dee e Ronaldo Bastos


Não são sinceras as razões
De quem insiste em não lembrar
Do sentimento em flor
O despertar do amor
Não se apaga mais dos corações

Amor nenhum tem tal poder
De provocar recordações
Bastou se ver mais uma vez
Para sentir que não passou



Semeado por Ana Flora às 14h39
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Obrigada...
 
Pela volta
                        não vinda.
 
Pelo beijo
                        não dado.
 
   Pelo abraço
                        não apertado.
 
    Pela comida
                        não pronta.
 
Pela fruta
                        não madura.
 
    Pelo carinho
                        não feito.
 
Pelo amor
                        não saciado.
 
  Obrigada...
 
                        Pela espera
                                        não útil.
 
Denize Sarruf


Semeado por Ana Flora às 17h31
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De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo

Vinicius de Moraes



Semeado por Ana Flora às 15h01
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Cartas de amor
 
 

    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.

    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)

    Fernando Pessoa por Álvaro de Campos, 21-10-1935


Semeado por Ana Flora às 14h16
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Românticos

Vander Lee

Românticos são poucos,
Românticos são loucos, desvairados
Que querem ser o outro,
Que pensam que o outro é o paraíso.

Românticos são lindos,
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas,
Que amam sem vergonha e sem juízo.

São tipos populares q
ue vivem pelos bares
E mesmo certos vão pedir perdão
E passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão
Romântico é uma espécie em extinção.



Semeado por Ana Flora às 23h22
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Para Li

Para uma Menina com uma Flor

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e
sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
Vinicius de Moraes



Semeado por Ana Flora às 02h32
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Quando o amor vacila

Eu sei que atrás deste universo de aparências
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem,
o café de cada manhã é servido.

Mas existe uma palavra que eu não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo, mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes,
Pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas,
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo o teu jogo triste.

As tuas roupas sujas, é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria,
mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência,
até pelo que você podia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado nas águas do equívoco...

Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo,
quando sozinha bordo mais uma toalha de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.
Te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual...
Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras,
Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma e mais que as palavras
ainda que seja através delas que eu me defendo.

Quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis
Quando o próprio amor vacila...

Poema de autoria desconhecida. Declamado por Bethânia no disco Maricotinha



Semeado por Ana Flora às 10h51
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Cântico IV
 
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
 
Cecília Meireles


Semeado por Ana Flora às 12h49
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Tive vontade de escrever...

Cai uma chuva macia no meu telhado. Um frio suave e envolvente me acolhe. Ouço o tilintar da goiabeira e penso em como é bom e prazeroso ter a poesia e a música a me embalar. Toca Vinicius. Nesse momento, ouço "O velho e a flor" na voz de Toquinho e Jane Duboc. E me deixo levar... Ah! O amor... quem o saberá definir? Se é que existe definição. Lembro-me de quando era garota e vivia tentando definir esse sentimento. Bobagem... Coisas de menina, quimera. Amor é amor, e pronto.

Mudando de assunto, fiz um café. Tá quentinho. Saboroso. Doce prazer. Servida? (risos)

"O amor é uma agonia. Vem de noite, vai de dia. É uma alegria. E, de repente, uma vontade de chorar."

Meus gatinhos passeiam pelo quintal. Sob a chuva, miam meio que de prazer e dor. Deixo-os livres, à vontade. Amor é assim. Estão lá, tranqüilos. Vão e vêm. Vêm e vão. Como os amores.

Amor. Amora. Saudade. Catapora.

Estava lembrando de quando fiquei toda empipocada, ainda criança. Uma coceirinha gostosa que dava, queria meter a unha e arrancar as casquinhas... Amor é assim: a gente vai com tudo! Comparação tola, não? (risos)

Estou preguiçosa hoje... dia bom pra fazer nada, apenas divagar. É, estou divagando. Eu posso! A página é minha mesmo...rs

Melhor dizendo, é nossa! Mande seu recado, dê sua sugestão.

Meu beijo.



Semeado por Ana Flora às 14h11
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Palavra de Mulher

 Chico Buarque

 

 

 

Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar

Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor, eu vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar

Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar



Semeado por Ana Flora às 13h56
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    Procura da poesia

    Não faças versos sobre acontecimentos.
    Não há criação nem morte perante a poesia.
    Diante dela, a vida é um sol estático,
    não aquece nem ilumina.
    As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
    Não faças poesia com o corpo,
    esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

    Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
    são indiferentes.
    Nem me reveles teus sentimentos,
    que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
    O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

    Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
    O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
    Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

    O canto não é a natureza
    nem os homens em sociedade.
    Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
    A poesia (não tires poesia das coisas)
    elide sujeito e objeto.

    Não dramatizes, não invoques,
    não indagues. Não percas tempo em mentir.
    Não te aborreças.
    Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
    vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
    desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

    Não recomponhas
    tua sepultada e merencória infância.
    Não osciles entre o espelho e a
    memória em dissipação.
    Que se dissipou, não era poesia.
    Que se partiu, cristal não era.

    Penetra surdamente no reino das palavras.
    Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
    Estão paralisados, mas não há desespero,
    há calma e frescura na superfície intata.
    Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
    Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
    Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
    Espera que cada um se realize e consume
    com seu poder de palavra
    e seu poder de silêncio.
    Não forces o poema a desprender-se do limbo.
    Não colhas no chão o poema que se perdeu.
    Não adules o poema. Aceita-o
    como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
    no espaço.

    Chega mais perto e contempla as palavras.
    Cada uma
    tem mil faces secretas sob a face neutra
    e te pergunta, sem interesse pela resposta,
    pobre ou terrível, que lhe deres:
    Trouxeste a chave?

    Repara:
    ermas de melodia e conceito
    elas se refugiaram na noite, as palavras.
    Ainda úmidas e impregnadas de sono,
    rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

    Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond



Semeado por Ana Flora às 13h10
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A IDADE DE SER FELIZ
Mário Quintana

Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida  de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.



Semeado por Ana Flora às 12h53
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"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Nelson Rodrigues

 


Semeado por Ana Flora às 12h45
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O beijo e cada signo

No Dia dos Namorados, nada melhor do que comemorar com um beijo apaixonado. Os beijos são uma arma poderosa na hora de seduzir, e cada signo tem um jeitinho de fazer esse momento especial.


ÁRIES - Costuma se entregar de corpo e alma quando está beijando. É um beijo quente, entusiasmado, cheio de paixão. Bastante impulsivo, prefere impor o jeito de beijar.

TOURO -Tem um beijo cheio de desejo e sensualidade. Gosta de despertar as mais variadas sensações em quem está beijando.É calmo e prefere beijos longos, profundos, e molhados.

GÊMEOS - Seu beijo é muito diferente e criativo. Não gosta de rotina na hora de beijar. Adora brincar com os lábios e, com a língua faz o perfeito jogo da sedução, deixando sem fôlego o seu amor.

CÂNCER - Muito romantismo, carinho e suavidade fazem parte do seu beijo. Quando está muito envolvido, gosta de beijar ardentemente. Sabe exatamente o que a outra pessoa está esperando.

LEÃO - Quer que todos os seus beijos sejam inesquecíveis, por isso não mede esforços para que sejam perfeitos. Tem muita força e desejo na hora de beijar o seu (sua) companheiro(a).

VIRGEM - A timidez não interfere no beijo geralmente apaixonado deste signo. Toca fundo no coração e quer que o par se sinta super bem. Na verdade, não parece, mas ele é um grande beijoqueiro.

LIBRA - Mistura palavras, carinhos e gestos românticos enquanto beija. Gosta de muito mimo também. E não tem pressa.Beijo para você tem que ser bem devagar e repleto de carícias.

ESCORPIÃO -Tem o beijo mais erótico e quente. Primeiro envolve a pessoa em sua magia, mistério e romantismo, depois dá o bote.A sensualidade é marca registrada em seus beijos.

CAPRICÓRNIO - Pode ser uma caixinha de surpresas. O seu beijo começa tímido, meio sem graça, mas depois se transforma em um beijo quente , explosivo , cheio de desejo. Essa é sua arma secreta na hora de seduzir.

SAGITÁRIO - Adora muitos carinhos e dengos enquanto beija. Gosta de se sentir especial e que a pessoa se entregue ao seu beijo. É bastante assanhado/a com as mãos na hora em que se está beijando.

AQUÁRIO - Adora inovar até quando vai beijar, por isso seus beijos nunca são iguais. Gosta de abraçar a pessoa amada enquanto beija. Precisa estar envolvido por inteiro para desfrutar do beijo.

PEIXES - Sua característica principal é dar prazer ao outro.Faz de tudo para que seu beijo seja leve e suave. É romântico/a e gosta de sentir-se amado/a e querido/a na hora dessas intimidades

 



Semeado por Ana Flora às 12h32
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História de coisa

O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo - faço questão de que seja "objecto" e não "objeto". O "c" é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas. Às vezes, quando disco um número, toca, toca, toca sem parar e ninguém atende: comunico-me pálida com o silêncio de uma casa oca. Até que não agüento a tensão e, nervosa, de súbito desligo, nós dois com taquicardia.

O telefone é insolúvel. O telefone é sempre emergente. As palavras não são coisas, são espírito. O telefone não fala objectos, fala espírito. Mas eu duvido da minha própria dúvida - e não sei mais o que é coisa e o que é eu diante da coisa. Ou se trata da tirania das palavras? Tomo cuidado para não pensar demais. Faz mal às palavras.

Mas o telefone obedece a uma lei inalterável e a um princípio eterno e dinâmico. Eu me ajusto à minha incerteza certa da certeza do telefone. Apesar de tantas conversas e palavras - o telefone é solitário. E mantém segredo. Indiscrição? Solitude. O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Atendo, digo "Alô" - e ninguém fala. Fico ouvindo a respiração de quem me ama e não tem coragem de falar comigo.

E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta. Até que não agüento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande. E quando eu me comunico com o sinal de comunicação? É um enigma: eu me comunico com um "não". Quando disco e dá sinal de ocupado, estou me comunicando com o sinal de comunicação. Com o próprio enigma, pois estou me comunicando com "não, não, não, não, não, não". E espero angustiada que o "não, não, não" se transforme em "sim, sim, sim". O sinal abençoado da chamada positiva de repente é: alô? de onde fala? Eu queria saber se existe o número 777-7777. Se existe comunico-me com o além.

O telefone é como a girafa: nunca se deita. E, apesar de ser usual, é como a girafa: inusitado. Sinto o telefone me esperar quando ele não estabelece logo uma ligação. Ouço uma respiração contida, contia, contida. O telefone é um ser infeliz. Ele pode se desesperar e de repente transmitir uma notícia ruim que pega a gente desprevinida. Mas quando pode, dá notícia alegre. Eu então rio baixinho.

Não adianta me explicarem como funciona o telefone. Como é que eu disco um número em casa e outra casa responde? Raio laser? Não. Astronauta, sim. Como é que na Idade Média e na Renascença as pessoas se comunicavam? Na Suíça a gente pede à telefonista para nos acordar a tal e tal hora. E também tem um serviço ótimo: a gente pergunta uma pergunta que só uma boa enciclopédia responderia. A telefonista pede para aguardar um prazo e depois telefona informando.

No Brasil demora meses ou até anos para a gente conseguir obter um telefone. Em New York um brasileiro pediu à telefonista para adquirir um telefone com muita urgência. Ela disse que não podia dar com urgência. O brasileiro desanimado perguntou quando conseguiria. Para seu pasmo, ela disse: só aqui a três dias.

Não digo o número de meu telefone porque é de grande segredo.

Meu telefone é vermelho. Eu sou vermelha.

Tenho que interromper porque o telefone está tocando.
Clarice Lispector



Semeado por Ana Flora às 17h06
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Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana 

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita

quanto a Revolução Cubana

Ferreira Gullar

DENTRO DA NOITE VELOZ (1962-75)



Semeado por Ana Flora às 13h29
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Elegia

(Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, a partir de
um poema de John Donne, poeta do século XVII)
 
    Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente
 Em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
         Reino de paz se um homem só a conquista
    Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
   A alguns a que tal graça se consente
     É dado lê-la
Eu sou um, quem sabe...


Semeado por Ana Flora às 13h10
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Açucena - Flor do Pantanal
 
Thiago de Mello

Flor de Açucena
 
 
Quando acariciei o teu dorso,
campo de trigo dourado,
minha mão ficou pequena
como uma flor de açucena
que delicada desmaia
sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu
e cantou como um menino
deslumbrado pelo brilho
estrelado dos teus olhos.
                                  
                                                                        92, Porantim


Semeado por Ana Flora às 13h09
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Aqui está minha vida

Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento. 

"Cecília levita, como um puro espírito...Por isso ela se move, "viaja", sonha com navios, com nuvens, com coisas errantes e etéreas, móveis e espectrais, transformando em pura poesia essa caminhada. Uma das excepcionalidades de Cecília Meireles: a composição de uma poesia densamente feminina, não apenas a poesia feita por alguém que é mulher, mas obra de mulher, de um sem número de perspectivas sobre as coisas que os homens não teriam, poesia na qual uma das grandes forças é a delicadeza, e delicadeza de poeta, que transfigura a vida em canto..."

Ana Cristina Cesar



Semeado por Ana Flora às 12h59
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Não tem volta

Zélia Duncan

Se você vai por muito tempo
Você nunca volta.
Você retorna,
Você contorna
Mas não tem volta
A estrada te sopra pro alto
Pra outro lado
Enquanto
Aquele tempo
Vai mudando.
Aí, de quando
Em quando você lembra

Aquele beijo,

Aquele medo
Mas você sabe
Que tudo ficou antigo
E você não volta
Nem com escolta
Nem amarrado
Porque o passado
Já te perdeu
E o perigo
Muda mesmo de endereço
Não existe pretexto.
O dia mudou
O carteiro não veio
O principio é o meio
E você retorna
Mas não tem volta.



Semeado por Ana Flora às 12h38
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Clarice Lispector




"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.

Não altera em nada...

Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.

A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."



Semeado por Ana Flora às 02h49
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