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Labareda

Ana Flora

 

Te vi chegar de mansinho
E crescer!
Língua de fogo
que acende
A secreta libido
Deliciosamente minha



Semeado por Ana Flora às 14h34
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Dispersão

Mário de Sá-Carneiro 

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,

É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida. 
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei. 
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo?  Um rastro?... Ai de mim!,..

Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em urna bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço,..

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba



Semeado por Ana Flora às 18h43
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Esquadros

Adrianna Calcanhotto

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela?  Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados
De um lado, eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela?  Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado



Semeado por Ana Flora às 18h29
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Seu corpo

Roberto Carlos 

No seu corpo é que eu encontro
Depois do amor, o descanso
E essa paz infinita
No seu corpo, minhas mãos
Que deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo o meu momento
É mais perfeito
E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio deste abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você

E continua a viagem
No meio desta paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado
Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
E em pouco estou tragada
Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo



Semeado por Ana Flora às 11h01
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Até quando terás, minha alma, esta doçura

Cecília Meireles

Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?



Semeado por Ana Flora às 11h38
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A uma mulher amada

Safo

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.



Semeado por Ana Flora às 11h27
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Calor Matinal

Ana Flora

Aos poetas

Com atraso - não em vão - canto e te estendo a mão para um passeio ao sol.

Venha comigo, não hesite, meu poeta quase triste de amor e solidão.

Venha, eu te conduzo!

Faça da estrada o mapa que o acaso, sutilmente, se encarregou de traçar.

Seu destino entrelaçado ao meu coração cortado de viver e de esperar.

Quer passear comigo?

"Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol..."



Semeado por Ana Flora às 02h07
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Autopsicografia

Fernando Pessoa

Reservam-se os direitos da imagem ao autor Piotr Kowalik.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



Semeado por Ana Flora às 22h33
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Afinidade

Arthur da Távola

Reservam-se os direitos da imagem ao autor Carlos Santos. 

Afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.  Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto onde foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo medindo a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real.  Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial (da esperança sobre a experiência).

Ter afinidade é muito raro. Mas, quando existe, não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar de longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras.  É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o amado.  Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.  É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com avalia sem contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade questiona por não aceitar.

A afinidade não precisa de amor. Pode existir com ou sem ele. Independente dele. A quilômetros de distância. Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar. Há afinidade por pessoas (não seria com pessoas?) a quem apenas vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos, veremos ou falaremos.

A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa de tempo para existir. Afinidade é adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm. Afinidade é retomar a relação do ponto onde parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque tempo e separação nunca existiram.  Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.



Semeado por Ana Flora às 11h19
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Pra eu parar de me doer

Milton e F. Brant

 

Mais que a dor do amor
Viver a dor
Me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor

Quem não semear
Não vai colher
Ai de quem
É um e nunca será dois
Por não saber

Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigo



Semeado por Ana Flora às 12h57
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Resposta ao André

09/10/2004 - 21:26   

Oi, amiga linda, Ana Flora, Flora Amor, que chora a dor do que finda despetalado e ainda vira verso, vira flor. Amém pro nosso desejo, que eu vou sair a pé! E daqui te mando um beijo, lembranças deste André.   

 http://esquinadoandre.zip.net

 Despetalada

A gente faz da dor uma alegria
Quando reverte a cinza
E a transforma em poesia.

E vira o jogo - também a mesa
E redescobre em cada pétala caída
O sabor da delicadeza.

Eu sou assim, não me desfaço
Apenas podo mais um laço
Que me fará novamente brotar.

Ana Flora 



Semeado por Ana Flora às 13h33
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Olhos nos olhos

Chico Buarque

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas, depois, como era de costume, obecedi
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
E tantas águas rolaram
"Quantas mulheres" me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz



Semeado por Ana Flora às 11h58
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Samba do grande amor

Chico Buarque

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada de um grande amor

Mentira



Semeado por Ana Flora às 11h41
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Nua

Extraído de www.caminhando.festim.net



Semeado por Ana Flora às 11h38
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Um dia feliz!

Para Mayra

Fazer de cada momento uma vida
E da vida um único momento
Lembrando da beleza das coisas simples
Isso é felicidade!
Zabumba, boneca, bombom, bala, bicicleta, brincadeira, diversão!

Amar, amar e amar!
Nunca desistir dos sonhos
Investir em tudo que te faz melhor
Viver intensamente
E realizar os desejos
Rir, sorrir, brincar, sentir
Saber-se a cada dia e
Ainda que haja obstáculos
Rompê-los com todas as forças
Inalando o perfume das flores
Ouvindo o canto dos pássaros

Parabéns!!!

Seja feliz, menina: é o seu dever!
Beijos carinhosos.



Semeado por Ana Flora às 12h38
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Sementes

"Aprendi com a primavera a me deixar cortar.
E a voltar sempre inteira."

 Cecília
Meireles

Motivo

Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

Doce Canção

Pus-me a cantar minha pena com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena, que até Deus pensou que fosse felicidade - e não pena.
Anjos de lira dourada debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.
Acordei a quem dormia, fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria da minha boca se ergue apondo o sonho e a vida juntos.
O mistério do meu canto, Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
- todos perdidos de encanto, só eu morrendo de triste!
Por assim tão docemente meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o ausente, para trazer o
Universo de pólo a pólo contente!

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Lua Adversa

Tenho fases como a lua
Fases de andar escondida
Fases de vir para a rua
Perdição da minha vida,
Perdição da minha vida,
Tenho fases,
Tenho outras de ser sozinha,
Fases que vão e que vem,
no secreto calendário que
um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda melancolia
Seu interminável fuso.
Não me encontro com ninguém
Tenho as fases como a lua.
No dia de alguém ser meu,
Não é dia de eu ser sua,
E quando chega este dia,
o outro desapareceu.

Atitude

Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.
O último passo do destino parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado
sino derramando flores de festa.
Meus olhos estarão sobre espelhos,
pensando nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

 



Semeado por Ana Flora às 18h55
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Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?

Direitos da imagem reservados a Nanã Sousa

Ouvindo Lula Barbosa a cantar Francisco Alves. No repertório, entre outras feras, Lupicínio Rodrigues. Sempre me identifiquei com ele. Mulheres, boemia, dor-de-cotovelo. Só me falta o violão. Melhor dizendo,  o violão eu tenho, mas não sei tocá-lo. Vocês não podem imaginar a falta que sinto de saber tocar um instrumento. Um, não. O instrumento: violão é minha paixão. Talvez por se assemelhar ao corpo de uma mulher (risos). As curvas, o minúsculo braço, as cordas de aço, firmes e fortes como as mulheres que passaram pela minha vida. Creio que seja o momento certo para aprender. Poderei cantar "Só você, violão, compreende por que perdi toda a alegria". Ocupar a cabeça, alimentar a alma, deixar o coração mais tranqüilo. Estou sofrendo, dói muito, mas tenho a música por companheira. "Por ser feliz, por sofrer, por esperar - eu canto! Pra ser feliz, pra sofrer, para esperar - eu canto!".

"Não há por que chorar por um amor que já morreu". Também ouvi Maria Rita hoje. Em Santa Chuva, mais uma pegada. Se ela tivesse usado qualquer outro argumento para me deixar, eu insistiria. Mas ela deixou de sentir. Aí, amigo, não tem jeito. Só me resta viver "o terror de ser deixada".

Outro disco que ouvi pela manhã foi Essa mulher, Elis. Ah! Elis. Fragmentou-me! "E chora tanto de prazer e de agonia, de um dia, qualquer dia, entender de ser feliz". Em outras passagens, até pensei: "é isso aí, vou ficar legal em breve". De repente, outra faixa me fazia desmoronar.

É... a vida é cíclica. Tudo tem começo, meio e fim. Agora, é juntar os pedaços, pois a vida não pára e a fila tem que andar. "Nesse descaminho, meu carinho te percorre a ausência..."

Adeus (cinco letras que choram)
Silvino Neto

Adeus, adeus, adeus
Cinco letras que choram
Um soluço de dor
Adeus, adeus, adeus
É como o fim de uma estrada
Cortando a encruzilhada
Ponto final de um romance de amor
Quem parte tem os olhos rasos d'água
Ao sentir a grande mágoa
Por se despedir de alguém
Quem fica também fica chorando
Com o coração penando
Querendo partir também

Preciso dizer mais?



Semeado por Ana Flora às 12h25
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Transparência

(re)vestida com uma canção,
fico completamente nua.
Ana Flora


Reservam-se os direitos da imagem a Marilia

Tomara
Vinicius de Moraes

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais



Semeado por Ana Flora às 12h13
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Sou você

Caetano Veloso

Reservam-se os direitos da imagem a Marília

Mar sob o céu, cidade na luz
Mundo meu, canção que eu compus
Mudou tudo , agora é você
A minha voz que era da amplidão
Do universo, da multidão

Hoje canta só por você
Minha mulher, meu amor, meu lugar
Antes de você chegar
Era tudo saudade
Meu canto mudo no ar
Faz do seu nome hoje o céu da cidade

Lua no mar, estrelas no chão
A seus pés, entre as suas mãos
Tudo quer alcançar você

Levanta o sol do meu coração
Já não vivo , nem morro em vão
Sou mais eu  porque sou você



Semeado por Ana Flora às 20h21
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Apontamento

 

 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos, 1929


Semeado por Ana Flora às 10h32
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Despetalada

Tristeza não tem fim

Felicidade, sim...

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor,
Brilha tranqüila, depois, de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval,
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta feira.

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar,
Voa tão leve, mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

Tristeza não tem fim,
Felicidade sim.

A Felicidade.
Tom Jobim e Vinícius de Moraes



Semeado por Ana Flora às 10h20
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Desalento

Chico e Vinicius

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim

Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Só sei
Que cansei enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos



Semeado por Ana Flora às 20h10
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Minha voz, minha vida

Caetano Veloso 

Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escondida
Minha bússola e minha desorientação

Se o amor escraviza
Mas é a única libertação
Minha voz é precisa
Vida que não é menos minha que da canção

Por ser feliz, por sofrer
Por esperar, eu canto
Pra ser feliz, pra sofrer
Para esperar, eu canto

Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente porque eu trago a vida aqui, na voz...

 

Reservam-se os direitos da imagem ao autor Nuno Veloso.



Semeado por Ana Flora às 18h38
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