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02 de Junho de 2008
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::Inebriaram-se::



Dilema do adeus

Angela Schaun

 
Quero dizer-te adeus
e não encontro palavra
para dizer-te adeus.
Simplesmente adeus
não traduz o que sinto
por fora e por dentro
ao dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro sentido
para dizer-te adeus.

Certamente adeus
não arranca de mim
a vontade de ficar
para dizer-te um adeus-sem-fim.

Quero dizer-te adeus
e dissolver todas as lembranças
e apagar a esperança
de rever um dia depois do adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro coragem
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
para que o tempo passe
as rugas e as pedras apareçam
e ainda assim dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro caminho
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e mansamente sumir na estrada
assim calada, no silêncio profundo
ao dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro o tempo certo
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na monotonia das palavras vãs,
na agonia da consciência cristã
que só permite dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e poder ser a mesma
depois do adeus.

Quero dizer-te adeus
e sair incólume
desse encontro inesperado
e ter a certeza de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e continuar como antes,
antes e depois de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na busca frenética de mil adeuses
na cena erótica de um quarto vazio
para conseguir dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
tantas e quantas vezes for preciso
pois só assim me conscientizo
de que é preciso dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
no anoitecer de um dia claro
no afã de um beijo desesperado
e encontrar força para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na transparência das minhas lágrimas
e no mesmo instante afogar-me em mágoas
para poder dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na busca do absurdo
do acaso surdo e mudo
daquele encontro que tornou-se adeus.

Quero dizer-te adeus
quantas vezes eu já nem sei
quantas noite eu vaguei
na busca infinita de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
pelos motivos que já sabemos
porém não cremos
por isso tão difícil dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e interromper este dilema
deixar mudo este poema
e silenciar este adeus.

Quero dizer-te adeus
no afã de um suspiro profundo
no elã de um olhar fecundo
e pronunciar docemente o adeus.

Quero dizer-te adeus
nas entrelinhas de uma poesia obscena,
no jogar pelo chão esta paixão terrena
sair correndo e dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
como um raio que fulmina,
como uma bebida que alucina,
bruscamente, dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e poder cair no esquecimento
pois não pensarei no tormento
quero simplesmente dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na rapidez de um trem veloz,
não quero que ouças a minha voz,
quando gritar, finalmente,
ADEUS.



Semeado por Ana Flora às 17h44
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Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.



Semeado por Ana Flora às 03h30
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Clarice Lispector

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

O nascimento do prazer (trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.



Semeado por Ana Flora às 03h28
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Pablo Neruda

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.



Semeado por Ana Flora às 03h21
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Renúncia

Ana Flora

 

 Abrir mão deste amor é necessário neste instante
Saber-se só (e definitivamente vã) requer coragem 
É preciso lançar-se no vazio
E traçar um novo rumo
Ainda que totalmente incerto

Eu me liberto e desperto para, novamente, amar


- ...No deserto, sem saudade, sem remorso, só. Sem amarras, barco embriagado ao mar -

 



Semeado por Ana Flora às 17h57
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Redemoinho

Ana Flora




A tarde cai
Vem a noite

Na madrugada
Te espero

Já é manhã
Te quero

E volta a tarde
Num círculo vicioso 





Semeado por Ana Flora às 16h49
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Instante

Ana Flora

Veloz , um foguete
Sublime, amor de mãe
Arrasador, um tufão
Derradeiro, o Apocalipse
Eterno, o primeiro beijo
Fugaz, um balão

Inebriante, o perfume de jasmim
Estrondoso, a bomba H
Arrepiante, um filme de terror
Prazeroso, o beijo na boca
Louco, um camicase
Saudoso, o primeiro amor

Passageiro, um cometa
Colorido, furta-cor
Contagiante, a catapora
Disfaz-se com o passar das horas
Como também, na língua, se desfaz
O saboroso paladar da amora 



Semeado por Ana Flora às 16h48
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A consciência desta tarde

Eric Ponty

I
A consciência desta tarde é feita de acasos
finitude de teus beijos, a graça das coisas
que nunca se perdem no plano em vão,
a densidade da luz na mecha dos cabelos
quando passa na contra mão da avenida.

A consciência desta tarde é feita de acasos
finitude de teus beijos, a graça das coisas
a sutileza do poeta recitando versos brancos
que se opõem às tradições dos versos densos,
místicos e alquímicos, métricos e herméticos.

A consciência desta tarde é feita de acasos
finitude de teus beijos, a graça das coisas
o crepúsculo quando se adensa no cotidiano
ou quando uma pena se esvai de uma pomba
e, leve, cai fazendo nascer a graça deste vazio.

II
A consciência desta tarde é feita de acasos
esta manhã solícita de adeuses, um lenço
que cai lembrando uma dama de outrora,
e o sorriso daquele que passa entretido,
com o rubor de face branca quando olha,
daquele que se perdeu em seus olhos,
tão densos, e parecem cosmos indefinidos.

A consciência desta tarde é feita de acasos
A brancura do riso, quando se perde, e nem
percebeu que se perdeu neste poema, que
se fez de tão solícito, e pede-lhe um beijo,
para que a consciência seja uma voada
de vôos de pássaros, e não de ar apenas,
como foi tecido, as vértebras deste poema.

 



Semeado por Ana Flora às 15h04
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Mude

Edson Marques

 

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

"Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena"
(Clarice Lispector)



Semeado por Ana Flora às 14h57
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Lacuna

Ana Flora


"Sabendo que só o tempo ensina a gente a viver"

Ele ensina, só não sei se a gente aprende! Tudo se repete e, ao mesmo tempo, é tudo tão novo! E vem o amor. O intenso dar e receber. E tudo é festa! Pelo menos, no início, e, se a gente tiver sorte, assim será até que se finde. Nesse sentido, não posso reclamar, pois a vida foi generosa comigo.

E vem o fim e, mais uma vez, não se sabe o que fazer. A vida é cíclica. Sim. E meu coração também passou a ser. Com licença poética, a hora do encontro é também despedida. Quando se volta a amar, dá para acreditar que não haverá fim. Claro, afinal, de que valeria começar algo se acreditássemos que não seria para sempre? Tá, também sei que o pra sempre sempre acaba. No entanto, que seja infinito enquanto dure. Esta é a mais pura verdade!

O fato é que torna-se uma mesmice esse ir e vir dos amores. Sei, sei, são coisas de momento, são chuvas de verão. Ou não. De certa forma, é bom estar comigo. Não que eu me baste, jamais! Sou, em múltpilos sentidos, dependente de outros, e ninguém é sozinho. Entretanto, vivo minuciosamente esse tempo de me saber, de questionamentos, de conclusões (sejam elas precipitadas ou não!), de me perceber e também os outros, a vida.

E, por que não, o amor? 

"Vou ter sempre você comigo. Nosso amor, eu canto e cantarei.
Você é tudo que amei na vida. Nunca vou te esquecer."

Foi assim com Anas, Ritas, Joanas, Iracemas e Carolinas. E não será diferente com ela. Sem falsa modéstia, tenho o dom de atrair grandes mulheres ao meu ninho. E, nas vezes em que me aventurei e corri o risco de isso não acontecer, meu anjo da guarda trabalhou bem. Ou será que o acaso me protegeu enquanto andei distraída? Não sei, e não importa.

No fim, tenho mais a agradecer que a lamentar. Coisas boas a lembrar. É bom ter do que sentir saudade. Em certos momentos, isso é tudo o que temos. Eis meu saldo de sentimentos.

E permanece em abero.



Semeado por Ana Flora às 18h54
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Tatuagem

Ana Flora

manhã
dia sombrio
mulher na cama
gata no cio

tarde
escurecer
noite infinita, novamente,
amanhecer

suas digitais
em meu corpo
um quente-frio
o dia todo

momentos em que me perco
"ah! meu pobre coração, o amor é um segredo"
ainda que eu o saiba
o fim, eu não entendo



Semeado por Ana Flora às 18h38
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