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02 de Junho de 2008
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Sugestão

Thiago de Mello


Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor, este tão belo amor
que deu grandeza e graça à tua vida,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.
 
Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só macia, mansa
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.
Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.
Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma para dar ao céu.

É tempo.
Faze tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor, este tão belo amor,
que dá grandeza e graça à tua vida.



Semeado por Ana Flora às 17h23
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O ron-ron do gatinho

Ferreira Gullar (do livro "Um gato chamado Gatinho", da editora Salamandra)


O gato é uma maquininha
que a natureza inventou,
tem pelo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
                                                                         Mas um motor diferente
                                                                         desses que tem nos bonecos
                                                                         porque o motor do gato
                                                                         não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão. 
                                                                         No passado se dizia
                                                                         que esse ron-ron tão doce
                                                                         era causa de alergia
                                                                         pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.



Semeado por Ana Flora às 16h16
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Não sei...

Cora Coralina


Não sei... se a vida é curta...

Não sei...
Não sei... se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.



Semeado por Ana Flora às 12h19
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Ainda bem

Vanessa da Mata

Ainda bem que você vive comigo
Por que senão, como seria essa vida?
Sei lá, sei lá...
Nos dias frios, em que nós estamos juntas
Nos abraçamos sob o nosso conforto
De amar, de amar...
Se há dores, tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me manda são fato
Do nosso cuidado e entrega.
Meus beijos, sem os seus, não daria
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo, sem o seu, uma parte
Seria o acaso, e não sorte...



Semeado por Ana Flora às 16h18
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A lua já se pôs

Safo

A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.



Semeado por Ana Flora às 01h16
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Frenesi e Despertar

Ana Flora

Madrugada
Silêncio e tudo é som!
Teu barulho rouba-me a paz
E não me deixa dormir
Canta dentro de mim
A tua voz, teu cheiro, tua cor
Meu desespero sem fim
É manhã e meu coração canta
Dentro do peito uma saudade aflita.
Invadem lembranças de um dia feliz
Do teu corpo no meu, de beijos afoitos e desejos sem fim.
É manhã e meu coração chora 
A falta do corpo, dos beijos, desejos, a ausência de agora.
Tudo revira, aqui dentro, remexe, devora
Faz a saudade doer.
"Por que temer a minha fêmea se a possuis como ninguém?...

Não penses ter a vida inteira para roubar meu coração"



Semeado por Ana Flora às 01h05
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Amei-te e por te amar

Fernando Pessoa

 

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...

Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.

Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.

Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...

Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?

Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.

Em que és [...] fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...

[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...

Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstrato
Que vai entre alma e alma...
Horas de inquieta calma!

E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei...
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo...

Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?

Nós não sonhamos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos - tão sinceras...
Meu gesto - tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...

Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...

Amamo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.

Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?

Talvez sintas como eu
E não saibas senti-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobri-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...

Somos a nossa bruma...
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...

Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...

E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.

"...a Lua vai banhar este lugar, e eu vou lembrar você...."



Semeado por Ana Flora às 16h53
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Apenas um desejo

Ana Flora

As sextas-feiras têm o poder de mexer comigo.

Parece que tudo se aquece e revira aqui dentro. Tendo vontade de sair por aí, sem destino algum e descobrir o que ela - a sexta-feira - me reserva. Nenhum plano ou propósito me move. Apenas uma inquietação provocante, um quê de prazer que fica me instigando: "vá lá, vá lá... deixe a rua te levar... veja a cidade se acender... veja a lua!".

Nos outros dias, essa química fica adormecida e estável. Nenhum desejo de voar. Mas, na sexta, ah!, a sexta, é de matar! Um furacão dentro de mim, um vai-e-vem louco, que me provoca os instintos de mulher.

Vontade de beijar uma boca carnuda e macia.
Vontade de me aventurar.
Vontade de ser e de estar.
Com alguém.
Mas não um alguém qualquer.
Não.
"Aquele" alguém.

E dançar, tocar, sentir. Fazer sentir.

Porém, nada farei.

Não quero me precipitar e nem perder a hora. Já sei olhar o rio por onde a vida passa. Muita coisa pra arrumar. Coisas minhas...

Mais uma vez, limito-me a extravasar aqui o meu desejo.



Semeado por Ana Flora às 16h32
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Nenhum mistério

Elizabeth Bishop (Tradução: Paulo Henrique Brito)

A arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois, perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes. A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios e mais um continente. Tenho saudade deles.

Mas não é nada sério. - Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério, por muito que pareça (Escreve!) muito sério.



Semeado por Ana Flora às 14h13
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Desfecho

Ana Flora

Tudo que queria era você feliz - ao meu lado sempre -, irradiando toda a sua luz, seu brilho interior e a alegria que só você emana.

E te ver passar, entre girassóis e rosas, com o sorriso mais arrebatador que só você soube me dar. Ao seu lado, querida, fazer o tempo parar e resumir-se nessa sensação de leveza e suavidade plenas.

Queria te dar meu amor, sublime amor, com todas as nuances que dele partem. Dar-te meu carinho e minha alegria, meu cansaço e, por que não?, minha agonia. E te amar inteiramente, toda, sem excluir qualquer dor ou alegria. Saber-te minha em sua plenitude.

Ah! Como o tempo me consome. Cada minuto longe de ti é como uma faca cortando-me em pedaços, esfacelando meu ventre, revirando-me as vísceras. Se ouso não pensar, logo os pensamentos me traem e é em você que eu repouso. A doce sensação de maciez e conforto do seu corpo, o toque da mão aveludada, meu sorriso em sua retina.

Lembrar tudo isso faz com que eu não me liberte, você está cada vez mais presente. Sem você, não há saída: dou sempre no mesmo lugar. 



Semeado por Ana Flora às 10h28
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A língua girava no céu da boca.

Drummond

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre.

Eu, ela, elaeu. Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor. 



Semeado por Ana Flora às 13h23
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O amor

Safo

O amor agita meu espírito
como se fosse um vendaval
a desabar sobre os carvalhos

 



Semeado por Ana Flora às 12h51
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Sobre a Escrita...

Clarice Lispector

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo  a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo.  Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.  Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse  ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.



Semeado por Ana Flora às 12h49
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