Vieste
Ivan Lins e Vitor Martins
 Vieste na hora exata Com ares de festa e luas de prata Vieste com encantos Vieste com beijos silvestres colhidos pra mim Vieste com a natureza Com as mãos camponesas Plantadas em mim Vieste com a cara e a coragem Com malas, viagens Pra dentro de mim, meu amor Vieste à hora e a tempo Soltando meus barcos e velas ao vento Vieste me dando alento Me olhando por dentro Velando por mim Vieste de olhos fechados Num dia marcado Sagrado pra mim Vieste com a cara e a coragem Com malas, viagens Pra dentro de mim, meu amor
Semeado por Ana Flora às 12h47
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Ninguém me habita
Thiago de Mello
 Ninguém me habita. A não ser o milagre da matéria que me faz capaz de amor, e o mistério da memória que urde o tempo em meus neurônios, para que eu, vivendo agora, possa me rever no outrora. Ninguém me habita. Sozinho resvalo pelos declives onde me esperam, me chamam (meu ser me diz se as atendo) feiúras que me fascinam, belezas que me endoidecem.
Semeado por Ana Flora às 12h28
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...
Lya Luft
 Homens são passos; Mulheres são perfumes Que se aproximam, param e se esquivam Sem lançar raízes nessa treva. Beijam-se, às vezes, como num murmúrio, Pra depois, num mundo só de beijos, Pousar a mão sobre meus olhos mortos, Como se baixasse nesses entrevados O teu carinho, a medo.
Semeado por Ana Flora às 11h54
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Arte de amar
Thiago de Mello

Não faço poemas como quem chora, nem faço versos como quem morre. Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira quando muito moço; achava que tinha os dias contados pela tísica e até se acanhava de namorar. Faço poemas como quem faz amor. É a mesma luta suave e desvairada enquanto a rosa orvalhada se vai entreabrindo devagar. A gente nem se dá conta, até acha bom, o imenso trabalho que amor dá para fazer.
Perdão, amor não se faz. Quando muito, se desfaz. Fazer amor é um dizer (a metáfora é falaz) de quem pretende vestir com roupa austera a beleza do corpo da primavera. O verbo exato é foder. A palavra fica nua para todo mundo ver o corpo amante cantando a glória do seu poder.
Semeado por Ana Flora às 15h46
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Traduzir-se
Ferreira Gullar

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem.
Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?
Semeado por Ana Flora às 15h37
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Poema ao mais recente amor
Hilda Hilst

Estar entre teus pêlos e dedos, entre tua densidade, neste transpirar sob medida aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos, entre o teu desejo e o meu prazer; beber parte de teus líquens e teus rios percorrendo-te da foz até a origem, e pura a cada amor partir mais virgem.
Semeado por Ana Flora às 14h22
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Escolha
Elisa Lucinda

Eu te amo como um colibir resistente Incansável beija-flor que sou Batedora renitente de asas Viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto. Pingas na minha boca umas gotas poucas Do que nem é uma vacina. Eu uma mulher, uma ave, uma menina. Assim chacinas o meu tempo de eremita. Quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias, As que vestiram meus pés Quando caminhei as areias. Eu te amo como quem esquece tudo Diante de um beijo: As inúmeras horas desbeijadas Os terríveis desabraços Os dolorosos desencaixes Que meu corpo sofreu longe do seu. Elejo sempre o encontro Ele é o ponto de crochê. Penélope invertida Nada começo de novo Nada desmancho Nada volto. Teço um novo tecido de amor eterno. A cada olhar seu de afeto Não ligo para nada que doeu. Só para o que deixou de doer tenho olhos. Cega do infortúnio Pesco os peixes dos nossos encaixes As confissões de amor. As palavras fundas de prazer, As esculturas astecas que nos fixam Na história dos dias.
Semeado por Ana Flora às 14h14
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...
Elisa Lucinda

Me assusta e acalma Ser portadora de várias almas De um só som comum eco Ser reverberante Espelho, semelhante Ser a boca Ser a dona da palavra sem dono De tanto dono que tem
Semeado por Ana Flora às 13h58
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Declaração de Amor
Drummond

Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peônia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.
Semeado por Ana Flora às 19h47
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Oferenda
Laura Amélia Damous

Venho te oferecer meu coração como o cansaço se oferece aos amantes o suor aos corpos exaustos depois de definitivo abraço Venho te oferecer meu coração como a lua se oferece à noite e o vento à tempestade Venho te oferecer meu coração como o peixe se oferece à captura no engano do anzol
Semeado por Ana Flora às 19h39
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Perdida no universo
Rosani Abou Adal

Há momentos em que me sinto tão forte quanto as montanhas do Tibet. [...] Existem dias em que me sinto tão pequena como um átomo perdido na galáxia, [...] tuas mãos não me afagam, perdida no universo sou o núcleo de um átomo.
Semeado por Ana Flora às 19h33
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Explosão
Ana Flora

Meu desejo brota,
lentamente,
até germinar a semente que floresce toda: em formas, odores, tato, ohar, sons, paladar.
Detalhes perfeitos invadem-me o peito e afloram meu grão de amor:
sou toda cor, brilho, fragmentos de luz.
Semeado por Ana Flora às 13h58
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Vertente
Ana Flora
No peito, um corte; na cabeça, você. Sem medo da sorte, quero prazer: recordo seu decote.

Semeado por Ana Flora às 16h24
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Fetiche
Sandra Regina S. Baldessin

O corpo, não. Os significados; a possibilidade do seiobjeto conter a fantasia; a parte pelo todo: o tomo.
A palavra, não. Os significantes; a possibilidade do verbobjeto conter a utopia; a metátese: o poema nunca se diz todo.
Semeado por Ana Flora às 15h49
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Refém
Ana Flora

Eu me rendo. Ainda que me custe a vida, eu me entrego. Ao teu prazer, às tuas vontades. Faça de mim o teu fantoche e realize teus fetiches. Deixo-te penetrar meus mistérios - e esqueço a morte. Porque ela é certa. E, meu desejo por ti, mais certo ainda.
Semeado por Ana Flora às 15h45
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Recordações
Castro Alves
(Recitativo para o piano)

Lembras-te ainda dessa noite bela Em que, donzela, te chegaste a mim? Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo... Que vai um beijo p'ra corar assim?...
........................................
Que linda noite! da montanha o vento Tênue lamento suspirava então. E nos teus lábios, no tremor, no medo Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço Do teu regaço a namorar o alvor. Como era terna no seu brando lume. ...Tive ciúme de ver tanto amor ...
Como dum cisne alvinitentes plumas Iam de brumas a vagar nos céus, Gemia a brisa — perfumando-a a rosa — Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!... Sempre o lábio mudo A dizer tudo, a respirar paixão; De espaço a espaço um fervoroso beijo, E após o pejo... e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa, Fui mariposa — tu me foste a luz, — Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me. E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento Geme um lamento de infinito amor, Busco debalde t'escutar as juras... Não mais venturas... só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela? Dize, donzela... Foi real... bem sei!... Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento, Diz-mo o tormento que por ti penei!...
Semeado por Ana Flora às 15h35
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Se tudo pode acontecer
Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit Alice Ruiz/ João Bandeira

Se tudo pode acontecer Se pode acontecer Qualquer coisa
Um deserto florescer Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando De mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento Dure a vida inteira
E além da vida Ainda de manhã No outro dia
Se for eu e você Se assim acontecer
Semeado por Ana Flora às 11h22
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Mãos dadas
Drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Semeado por Ana Flora às 11h15
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Acordar, viver
Drummond

Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa, suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento, qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora, algoz do inocente que não sou? Ninguém responde, a vida é pétrea.
("Seu sangue errou de veia e se perdeu")
Semeado por Ana Flora às 11h06
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Banho de gata
Ana Flora
gota a gota percorro seu corpo sou água macia e quente deslizando até seu ventre a desfrutar do prazer e conforto da pele sedosa e perfumada que só em ti, doce amada, encontro
Semeado por Ana Flora às 13h06
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