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Transparência

Rosana Braga

Às vezes, fico me perguntando por que é tão difícil ser transparente. Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros. Mas ser transparente é muito mais do que isso. É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente.

Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar. Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde! Mas, infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana. Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser. Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo!

Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem  realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção. E, assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos. Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado.

Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar: doçura, compaixão. A  compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos... daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos!

Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: "você está me machucando... pode parar, por favor?". Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro. Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanta dor...

Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura! Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencível. Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto, que consigamos docemente viver, sentir, amar... E que você seja não só razão, mas também coração, não só um escudo, mas também sentimento. Seja  transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar.



Semeado por Ana Flora às 11h48
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Da natureza humana

Fátima Irene Pinto

Há pessoas que nos libertam... há outras que nos aprisionam e asfixiam.

Há pessoas capazes de extrair de nós o que há de melhor e mais bonito... há outras que colocam em evidência toda a nossa imperfeição.

Há pessoas que nos tomam pela mão e nos conduzem... há outras que nos empurram para o abismo da desorientação.

Há pessoas que semeiam flores de esperança e luz... há outras que vão colocando espinhos na nossa cruz.

Há pessoas que nos injetam vida, otimismo, confiança... há outras que aniquilam nosso equilíbrio e temperança.

Há pessoas que nos fazem multiplicar nossos poucos talentos... há outras que nos fazem enterrar os poucos que supúnhamos ter.

Há pessoas que são balsâmicas em nossas vidas... há outras que tornam completamente inócua a nossa lida.

Há pessoas que nos estruturam e nos levantam... há outras que nos fragmentam e nos desmontam.

Assim posto, até onde o destino o permitir, que possamos ficar longe daqueles que nos são corrosivos, e que possamos ficar perto daqueles que nos são benfazejos.

Mas, às vezes, por uma destas razões incompreensíveis da natureza humana, descobrimos com espanto que há pessoas que simultaneamente nos elevam e nos abatem... nos levantam e nos derrubam...nos apedrejam e deitam bálsamo nas nossas feridas.

E, mais perplexos ainda ficamos, quando constatamos que por um capricho da Criação, ou quem sabe, da nossa mísera condição, não somos vítimas passivas deste processo, e que vivendo e interagindo, vamos nós também distribuindo (querendo ou não querendo) alegrias e dores, mágoas e alentos, luz e escuridão...

Como se dançássemos em perfeita simetria ou como se contracenássemos em perfeita sintonia com os nossos "balsâmicos algozes". Tal é a humana condição... eis a questão!

 



Semeado por Ana Flora às 11h32
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Salada de frutas

Ana Flora

Em meio às uvas
O segredo do teu vértice

Os sabores se misturam
A beleza se repete

O doce do teu corpo
A excitação, o desejo

Sugo cada gota...
Bebo o teu sexo

Me faz bem
Tem mais mistérios do que o mar...



Semeado por Ana Flora às 14h58
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Néctar

Ana Flora

sabor que revela o pecado
[mais puro]
pecado que sela o prazer



Semeado por Ana Flora às 15h46
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Sexo e Luz

Lokua Kanza e Carlos Rennó

Quando o sol abaixou, num dia tão monótono,
a paixão me deixou atônito.
Me tirou da rotina e, num momento único,
alterou meu destino de súbito.

Aí, saí do vale do meu tormento e fui
cair no lago do teu amor.
Ali, aliviei todo o meu sofrimento - e ui! -,
me vi gemendo de prazer que nem de dor.

Enfim, lancei de mim um grito
e, em ti, fui um com o infinito.

E, no céu do meu eu, no íntimo, no âmago,
acendeu um límpido relâmpago.
No ápice, em átimos que pareceram séculos,
eu me banhei e me lavei em sexo e luz.

Então, além do monte, além do horizonte - ah! sim -,
além do mundo, além da razão - oh! não -,
bebi do gozo sem fundo, da fonte sem fim,
o poço do desejo, a fonte da paixão.

Enfim, lancei de mim um grito
e, em ti, fui um com o infinito.

No ápice, em átimos que pareceram séculos,
eu me banhei e me lavei em sexo e luz.



Semeado por Ana Flora às 15h36
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