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02 de Junho de 2008
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Dulce, - Mar, Estrela e Sonho

Eliezer Demenezes

 

Dulce, - mar, estrela, sonho.

Mar de estranhas águas e roteiros.

Estrela e sonho em minha mão.

Que primeiro barco te singrara.

Que primeiro gesto te colhera.

Estrela e sonho em minha mão.

Mar de aventuras e naufrágios,

longas vozes ressoam no teu corpo,

e há tesouro submerso e navios perdidos em ti.

De que longínquo céu caíste em chamas.

Estrela e sonho em minha mão.

Há em tuas margens enseadas e abrigos,

Há no teu seio, - ilhas.

E passeio neles como um peixe ou uma nuvem,

Mar que mergulho, e afloro, e navego.

Estrela e sonho em minha mão.

 

Foto: Guardiã de mares e sonhos - Victor Melo

 

 



Semeado por Ana Flora às 14h14
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Retrato em Branco e Preto

Tom Jobim e Chico Buarque

Já conheço os passos dessa estrada

Sei que não vai dar em nada

Seus segredos sei de cor

Já conheço as pedras do caminho

E sei também que ali sozinho

Eu vou ficar tanto pior

O que é que eu posso contra o encanto

Desse amor que eu nego tanto, evito tanto

E que no entanto volta sempre a enfeitiçar

Com seus mesmos tristes velhos fatos

Que num álbum de retrato eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo feito um tolo,

Procurar o desconsolo

Que eu cansei de conhecer

Novos dias tristes,

Noites claras, versos, cartas

Minha cara, ainda volto a lhe escrever

Pra lhe dizer que isso é pecado

Eu trago o peito tão marcado

De lembranças do passado

E você sabe a razão

Vou colecionar mais um soneto

Outro retrato em branco e preto

A maltratar meu coração

 

Foto: Retrato em Branco e Preto - Ana Loura

 



Semeado por Ana Flora às 22h54
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Amar!

Florbela Espanca

 

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui...além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

 

 Foto: Emoções fortes - José Gama



Semeado por Ana Flora às 13h49
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Amanhecimento

Elisa Lucinda

 

De tanta noite que dormi contigo

no sono acordado dos amores

De tudo que desembocamos em amanhecimento

a aurora acabou por virar processo.

Mesmo agora

quando nossos poentes se acumulam

quando nossos destinos se torturam

no acaso ocaso das escolhas

as ternas folhas roçam

a dura parede.

nossa sede se esconde

atrás do tronco da árvore

e geme muda de modo a

só nós ouvirmos.

Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos

o pio de todas as asneiras

todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha

para um dia partirem em revoada.

Ainda que nos anoiteça

tem manhã nessa invernada

Violões, canções, invenções de alvorada...

Ninguém repara,

nossa noite está acostumada.

 

 

Foto: Vestida de luz - Elsa Mota Gomes 

 

 



Semeado por Ana Flora às 13h19
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Os Estatutos do Homem

Thiago de Mello

(Ato Institucional Permanente)

 Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira. 
 
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV  
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: 
        O homem, confiará no homem
        como um menino confia em outro menino.

Artigo V 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII 
Por decreto irrevogável fica estabelecido 
o reinado permanente da justiça e da claridade, 
e a alegria será uma bandeira generosa 
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII  
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX  
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.  
Mas que sobretudo tenha 
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 
Fica permitido a qualquer  pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI  
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama 
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII  
Decreta-se que nada será obrigado 
nem proibido,
tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela.

        Parágrafo único: 
        Só uma coisa fica proibida:
        amar sem amor.

Artigo XIII  
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.  
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre 
o coração do homem.

14/03 - Dia da Poesia

Foto: Tão delicada... - Susana Ferreira



Semeado por Ana Flora às 14h45
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Instantes

Neuza Pinheiro

 

 

abre

fecha

os olhos

 

 

e quando

de novo

olhares

toca

o tempo

em cada

átimo

 

 

instantes
são colares

 

 

adorno
dos
atos

 

 

Foto: 60's - Pedro da Costa Pereira

 



Semeado por Ana Flora às 21h12
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Convocatória

Lucio Celso

 

Todo amor de uma mulher

 

Dá em sangue, em nutriente, seta.

 

Aqui somos seu vetor e seu acusador!

 

Qualquer dor d'uma mulher

 

É suadouro, é grito profundo e mudo.

 

Aqui estamos para dar dicção aos berros!

 

O olor da mulher é sumo,

 

É dia-a-dia, é junção, é luta.

 

Estamos todos unidos em torno do poste e das mulheres.

 

Todo calor da mulher

 

É mais que fogo.

 

É água e cama do trabalhador.

 

Incendiemos a esquina sem verba, mas com combustível-verbo.

 

Foto: Seda pura - Pedro da Costa Pereira



Semeado por Ana Flora às 12h44
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Saudade

Clarice Lispector

 

Saudade é um pouco como fome.

Só passa quando se come a presença.

Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco:

quer-se absorver a outra pessoa toda.

Essa vontade de ser o outro

para uma unificação inteira

é um dos sentimentos

mais urgentes que se tem na vida

 

Foto: Dream - Gonçalo Trafaria 

 



Semeado por Ana Flora às 00h15
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